Medalhas e outros abusos

novembro 13, 2017 2:38 pm

Eu não presto homenagens a ninguém com dinheiro público – não fui eleito para isso e me revolto de saber quanto dinheiro e tempo é perdido com essas quinquilharias protocolares, enquanto os problemas de verdade e os investimentos necessários continuam sendo postergados.

Não nasci em Belo Horizonte, porque meu pai precisava trabalhar dia e noite para reerguer o negócio dele, depois de quase quebrar no fim do “milagre econômico”… Nem por isso preciso de um título de cidadão honorário de Belo Horizonte para me sentir legitimado a defender minha cidade e o interesse dos meus eleitores.

Outro dia um desavisado me ligou, depois de conseguir meu telefone em algum lugar, para me pedir – ou melhor, exigir, pelo tom utilizado – que eu oferecesse um diploma de honra ao mérito a um alguém qualquer que ele decidiu merecer todo o respeito e admiração da cidade de Belo Horizonte… Então eu disse que ele poderia se sentir já homenageado pela minha decisão de não gastar dinheiro público com isso. Ele agradeceu, meio sem saber exatamente por qual razão, e desligou.

Quase diariamente, na Câmara, sou abordado por outros vereadores que pedem minha assinatura em indicações de homenagens. Mas eu sempre recuso e explico de forma simples: cada vez que não contribuo com essas bobagens eu estou, na verdade, homenageando os 36 mil eleitores do NOVO em BH e todos os outros que acreditam que há coisa mais relevante a ser feita pela iniciativa privada do que conceder e receber homenagens estéreis e sem critério.

O auge dessa extravagância, que é a concessão de homenagens, títulos e comendas, na Câmara Municipal de BH, se dá, anualmente, com a concessão do “Grande Colar do Mérito Legislativo”. Trata-se de uma festa anual para agraciar os indicados pelos 41 vereadores da cidade. Todos os anos, cada vereador faz a sua indicação, usando exclusivamente seu critério subjetivo e pessoal de quem seriam os merecedores dessa graça que, no ano passado, custou mais de R$ 200mil para os contribuintes.

Tudo me incomoda, nesse caso… Desde o nome… Por que um colar? Por que ele é grande? Qual o mérito? R$ 200 mil? E quem é o legislativo para reconhecer esse mérito com o dinheiro alheio…

Não sou contra homenagens. Eu mesmo as presto a quem admiro, constantemente. Só não vejo porque deveria usar dinheiro público ou tempo e estrutura da Câmara para isso.

Devolvi o formulário de preenchimento obrigatório com o nome do indicado à medalha, deste ano, com os dizeres: “não vou homenagear ninguém”. Depois me arrependi.

Deveria ter dito: “vou homenagear a todos os cidadãos de Belo Horizonte e, para isso, preciso apenas não entregar a medalha para ninguém”!

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 13/11/2017

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