“O Mecanismo” e a realidade do Brasil

Maio 4, 2018 11:39 am

Mesmo para quem, por apego a reclamar de qualquer coisa, não gostou da minissérie do Netflix “O Mecanismo”, é inegável o realismo e crueza da fotografia do cenário político brasileiro: corrupção, falta absoluta de escrúpulos e de vergonha da classe política, promiscuidade dos gestores públicos com os executivos das maiores empreiteiras do país e presença do crime organizado na estrutura da corrupção política nacional.

Sem pretender dar um grande spoiler, a situação mais emblemática do estado atual das coisas é a sequência relativa ao conserto do esgoto em frente à casa do fictício ex-delegado da PF representado por Selton Mello: a corrupção embrenhou-se profundamente no poder público em todas as instâncias, em todos os serviços, independentemente dos valores envolvidos ou do tema sob análise, a presença de estruturas de favorecimento e corrupção é quase universalizada. A situação gira em torno da necessidade de um reparo na tubulação de esgoto que, se for feito pela companhia pública de saneamento, levará tempo, mas pode ser rapidamente resolvido por um “parceiro”, mediante o pagamento de um preço muito mais alto do que o normal pelo serviço, para que toda a estrutura de “indicação” de serviços existente dentro da empresa pública possa ser alimentada. Esse é o mecanismo, como bem resume a própria minissérie.

A revolta com a corrupção nas pequenas e grandes coisas domina a todos. Mas o que poucos percebem é que a situação revela também o caminho de solução para a maior parte da corrupção nacional: a diminuição do tamanho do Estado.

Veja que é no espaço da ineficiência estatal – em que demoraria dias ou semanas para resolver um problema simples – que se esconde o espaço para a corrupção. É na estrutura agigantada da estatal que se enraíza o custo da “indicação”. E é para os apadrinhados políticos que ocupam essas estruturas que vertem os recursos. Quer resolver o problema? Esvazie completamente a atuação do poder público sobre a manutenção e reparo das redes de esgoto e esse espaço desaparece, pois é na ineficiência e obscuridade da atuação pública que se escondem todos os espaços para a corrupção.

O mesmo se diga sobre cada um dos grandes escândalos de corrupção do Brasil. Ou alguém acha que um banco privado teria sido ludibriado como o BNDES foi para beneficiar os irmãos Joelsey e Wesley? Alguém acredita que uma multinacional provada de petróleo teria sido lesada como foi a Petrobras por todos os amigos do poder? O mesmo posso perguntar sobre Furnas, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Fundos de Previdência das Estatais.
É no gigantismo do Estado brasileiro que se explica o tamanho da corrupção.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 30/04/2018

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